Um dia sua avó fará um bolo pela última vez
- emmamarcon

- há 5 dias
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Um dia a sua avó fará um bolo pela última vez. Talvez você ainda não tenha pensado nisso.
Mas um dia…
a sua avó fará um bolo pela última vez.
Sem avisar.
Sem cerimônia.
Sem que ninguém perceba que aquele momento estava se tornando a última memória.
Talvez seja aquele bolo simples, que nunca saiu igual em nenhum outro lugar.
Talvez aquele cheiro que invadia a casa antes mesmo do café passar.
Talvez a mesa cheia num domingo qualquer.
E talvez, enquanto tudo isso acontecia pela última vez... você estivesse mais preocupada em “se controlar”.
Mais ocupada tentando não ceder.
Porque, em algum momento, comer deixou de ser encontro e virou medo.
Eu sei que desde pequena fomos ensinadas que o prazer está no prato. Que o lazer precisa de comida, que o afeto precisa de comida, que a felicidade precisa de comida. A comida está no centro dos nossos afetos.
Mas hoje existe um movimento de 8 ou 80. Ou eu como tudo como se não houvesse amanhã, ou eu me restrinjo totalmente por medo.
Medo de perder o controle.
Medo de exagerar.
Medo de “estragar tudo”.
E aos poucos…
o que antes era memória afetiva começa a virar tensão.
A comida passou a carregar culpa antes mesmo do primeiro pedaço.
Mas existe uma coisa que ninguém fala o suficiente: comida nunca foi só comida.
Ela também é: lembrança, conexão, cuidado, presença, afeto.
É o brigadeiro enrolado junto.
O almoço de domingo.
A receita escrita à mão.
O cheiro que faz você voltar no tempo sem perceber.
E não… isso não significa que você precise viver sem consciência.
Mas talvez esteja na hora de perceber que tentar controlar tudo também tem custado caro.
Porque o medo constante de “ceder” está fazendo muita gente perder algo precioso: o encanto e o tempo.
O encanto de sentar à mesa sem culpa. E o tempo precioso com os nossos amores (que em algum momento será o último).
De compartilhar momentos sem cálculo mental.
De viver experiências sem transformar tudo em ameaça.
No fim, quando você consegue ter equilíbrio, você provavelmente nem vai lembrar das calorias daquele pedaço de bolo.
Mas vai lembrar: do cheiro da cozinha, da gargalhada que só a nona sabe dar, da forma como alguém te olhava enquanto servia mais um pedaço.
Porque algumas comidas alimentam muito mais do que o corpo.
Elas alimentam vínculos.
E talvez o equilíbrio também esteja nisso: aprender que saúde não deveria exigir que você se afastasse da própria vida.




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