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Como se chega a um transtorno alimentar?




Quando falamos em transtorno alimentar, muitas pessoas ainda imaginam algo que surge “do nada”, como se fosse uma escolha, uma falta de controle ou até uma vaidade exagerada.

Mas a verdade é que ninguém acorda um dia e decide ter um transtorno alimentar. Ele é construído aos poucos, silenciosamente, a partir de uma soma de fatores emocionais, comportamentais, sociais e biológicos.


Chegar a um transtorno alimentar não é um ponto isolado. É um processo.


Tudo começa na relação com o corpo.


Para muitas pessoas, o primeiro contato com a insatisfação corporal acontece cedo. Comentários sobre peso na infância, comparações dentro da família, bullying na escola, padrões irreais nas redes sociais ou a ideia de que o corpo precisa ser controlado para ser aceito.


Aos poucos, o corpo deixa de ser apenas um corpo e passa a ser um problema a ser corrigido.


Nesse momento, a pessoa aprende que:

• emagrecer é sinônimo de sucesso

• engordar é fracasso

• comer “errado” gera culpa

• controlar o corpo é uma forma de controle emocional


Essa mentalidade não surge do indivíduo, mas do ambiente em que ele está inserido.


A comida passa a ter um papel emocional.


Com o tempo, a comida deixa de responder apenas à fome física e começa a ser usada para lidar com emoções difíceis.

Ansiedade, estresse, tristeza, solidão, frustração, cansaço, sobrecarga emocional… tudo isso encontra, na comida, uma forma rápida de alívio.


O problema não é comer por emoção. Isso é humano.

O problema surge quando a comida vira a principal ou única estratégia de regulação emocional.


Nesse ponto, a pessoa pode começar a:

• comer escondido

• comer rápido, sem perceber

• comer até passar do ponto do conforto

• alternar períodos de restrição com episódios de exagero


E, junto com isso, aparece a culpa.


O ciclo da restrição e da compulsão.


Após episódios de exagero, muitas pessoas tentam “consertar” o que aconteceu através de dietas restritivas, jejuns prolongados, compensações com exercício físico ou regras rígidas.


Isso cria um ciclo muito comum:

restrição → perda de controle → culpa → mais restrição


Quanto mais rígidas são as regras, maior tende a ser o desejo, a obsessão e, eventualmente, a perda de controle.

Esse ciclo vai enfraquecendo a confiança da pessoa em si mesma e reforçando a ideia de que “o problema sou eu”.


Pensamentos disfuncionais vão se consolidando.


Com o tempo, não é só o comportamento que muda. Os pensamentos também se tornam mais rígidos e extremos, como:

• “Ou eu faço perfeito ou não adianta”

• “Se eu comer isso, estraguei tudo”

• “Meu valor depende do meu peso”

• “Eu não tenho controle nenhum”


Esses pensamentos passam a guiar as escolhas alimentares e o modo como a pessoa se enxerga.

Aqui, o transtorno alimentar começa a ocupar mais espaço mental, emocional e comportamental.


Quando o comportamento vira identidade.


Em fases mais avançadas, o transtorno deixa de ser apenas algo que a pessoa faz e passa a ser algo que ela é.

A vida começa a girar em torno da comida, do peso, do corpo, das regras, das compensações.


Relacionamentos, trabalho, lazer e autoestima ficam diretamente ligados ao sucesso ou fracasso na alimentação.


É nesse ponto que muitas pessoas se sentem presas, envergonhadas e com medo de pedir ajuda.


O que é importante entender:


Transtornos alimentares não surgem por falta de força de vontade.

Eles são o resultado de:

• tentativas repetidas de controle

• dificuldade de lidar com emoções

• ambientes que reforçam a magreza como valor

• histórias de dor, insegurança e cobrança

• estratégias que começaram como solução e viraram problema


Por isso, o tratamento não pode ser apenas sobre comida.

Ele precisa olhar para o comportamento, as emoções, os pensamentos e a história daquela pessoa.


Chegar a um transtorno alimentar é um caminho.

Mas sair dele também é. E esse caminho pode ser construído com apoio, consciência e cuidado.


 
 
 

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